22 → 29 Agosto · Sicília Ocidental

Sicíliao lado da ilha onde os autocarros não chegam

Oito dias entre tonnaras abandonadas, um templo grego que ninguém acabou, salinas cor-de-rosa ao pôr-do-sol e a melhor comida de rua da Europa. Está tudo a menos de uma hora de carro do sítio onde vamos dormir.

7noites
2bases
1carro
0autocarros
O terreno

Um canto de ilha, e nada mais

Não atravessamos a Sicília. Ficamos no canto noroeste, onde tudo está a 40 minutos de tudo. Duas casas em oito dias — nada de fazer e desfazer malas.

SAN VITO LO CAPO PALERMO Scopello Castellammare Segesta Salemi Custonaci Erice Trapani Salinas FAVIGNANA Monreale Aeroporto
Onde dormimos Onde paramos Onde nos molhamos
Noites 1 a 5

San Vito Lo Capo

Uma vila de casas brancas encostada a uma praia de areia branquíssima, com uma montanha atrás. Daqui saem todos os dias sem nunca passar dos 50 minutos de carro.

Noites 6 e 7

Palermo

Mercados árabes, igrejas normandas, ruínas barrocas e jantares às onze da noite. Deixamos o carro na garagem e não voltamos a tocar-lhe.

1
Sábado · Chegada
Aeroporto → Castellammare → Scopello → San Vito

A primeira água

Há uma decisão a tomar assim que sairmos do aeroporto: ir descansar, ou ir directos ao mar. Não é uma decisão.

  • Levantar o carro e virar à esquerdaO aeroporto fica 35 km a oeste de Palermo, já a caminho de tudo o que interessa. Não entramos na cidade.
  • Castellammare del GolfoUm porto de pescadores em anfiteatro, com um castelo aragonês a fechar a baía. Primeiro mergulho na Cala Marina, a 40 passos das mesas dos cafés.
  • Scopello e a TonnaraA aldeia inteira é um pátio e duas ruas. A tonnara — a fábrica de atum abandonada aos pés de três rochedos gigantes no meio do mar — é uma das imagens da Sicília. Ao fim da tarde a luz faz o resto.
  • Jantar em San Vito Lo CapoCuscuz de peixe, que é o prato da vila, e uma cerveja à beira-mar. Já estamos cá.
O pormenor

A entrada na tonnara de Scopello é paga e tem lugares limitados — vale a pena telefonar de manhã.

Se o avião aterrar depois das 18h: corta-se Castellammare e vai-se directo a Scopello para o pôr-do-sol.

2
Domingo · Reserva do Zingaro
7 km de costa · sem uma única estrada

O despertador às seis vale sempre a pena

Sete quilómetros de falésia onde nunca passou um carro. Chega-se às calas a pé e, se chegarmos cedo, chegamos sozinhos.

  • Entrada norte, à hora de abrirÀs 7h estamos a entrar. Às 10h já não há sombra nem sítio para pousar a toalha — é assim de simples.
  • Cala Tonnarella dell'UzzoÁgua transparente sobre seixos brancos, com a falésia a cair a pique atrás. A primeira cala do trilho e das mais bonitas.
  • Cala dell'Uzzo e Cala MarinellaMais 20 minutos a pé para trás cada uma, e menos gente em cada uma. Máscara de mergulho na mochila.
  • Almoço tardio e uma sesta sériaVoltamos para San Vito, comemos, dormimos. Ninguém faz nada útil entre a uma e as cinco na Sicília.
  • Praia de San Vito e a vila ao fim do diaUm quilómetro e meio de areia branca com o Monte Mónaco a fazer de pano de fundo. Depois, gelado na rua principal.
O pormenor

Bilhete de 5 € comprado à entrada, só com cartão — não aceitam dinheiro e não há reserva online.

Não há bares, cafés nem água lá dentro. Dois litros por pessoa, chapéu e ténis — com chinelos recusam a entrada.

Um incêndio percorreu a reserva em 2025. Reabriu por completo, mas parte da vegetação ainda está queimada. As calas continuam intactas — é por elas que se vai.

3
Segunda · Segesta e Salemi
Templo grego → vila de montanha → praia

Um templo que ninguém chegou a acabar

Está numa colina, sozinho, há dois mil e quinhentos anos. Sem cidade à volta, sem paredes, sem telhado — só trinta e seis colunas e o vento.

  • Segesta, à hora de abrirO templo dórico primeiro, depois o teatro grego no topo do monte, com vista até ao golfo. Há um minibus a subir, e vale os dois euros.
  • SalemiVila de pedra dourada sobre uma colina, com um castelo normando. A igreja principal ficou sem tecto depois do sismo de 1968 e transformaram-na numa praça a céu aberto entre as colunas. É estranha e é lindíssima.
  • Almoço em SalemiPreços de vila do interior, comida de vila do interior. Metade do que se paga na costa.
  • Praia de GuidalocaEnseada de água calma entre Scopello e Castellammare, com muito menos gente do que San Vito. Fica-se até o sol baixar.
  • Jantar no porto de CastellammareMesas em cima da água, barcos a oscilar ao lado. Peixe grelhado e vinho branco de Alcamo.
O pormenor

Segesta não tem uma única sombra. Às 11h30 já é castigo — daí a hora de abertura.

Salemi está a 450 m de altitude, o que dá uns graus a menos e ruas com sombra. É o sítio certo para as horas de maior calor.

4
Terça · Custonaci, Erice, salinas
Uma gruta, uma cidade nas nuvens, um pôr-do-sol cor-de-rosa

Mil metros acima do calor

O melhor dia da viagem, e o mais cheio. Começa numa aldeia construída dentro de uma gruta e acaba com o sol a pôr-se em cima de montanhas de sal.

  • Grotta Mangiapane, CustonaciUma aldeia inteira — casas, capela, oficinas — construída lá dentro de uma gruta de 70 metros de altura. Foi habitada até aos anos 50 e ficou parada no tempo. Quase ninguém sabe que existe.
  • EriceCidade medieval inteira a 750 metros de altitude, muitas vezes dentro de uma nuvem. Ruas de pedra polida, o Castelo de Vénus na ponta do rochedo, e 10 graus a menos do que na costa.
  • Genovesi na Maria GrammaticoMassa quebradiça quente com creme lá dentro, feita por uma senhora que aprendeu a receita num convento. Não é armadilha para turistas — é mesmo dos melhores doces de Itália.
  • TrapaniCentro histórico barroco encaixado numa língua de terra com mar dos dois lados. Duas horas chegam bem — é agradável, não é extraordinária.
  • Salinas de Nubia, ao pôr-do-solTanques de água cor-de-rosa, pirâmides de sal branco e moinhos de madeira, com as ilhas Egadas na linha do horizonte. É o melhor pôr-do-sol da viagem, e não é sequer perto.
  • Jantar em TrapaniBusiate al pesto trapanese — massa torcida à mão com amêndoa, tomate cru, alho e manjericão. O prato da cidade.
O pormenor

A Erice sobe-se de teleférico desde Trapani (10 minutos, com vista) ou de carro por Valderice. De carro é mais prático neste dia, porque vimos de Custonaci.

O teleférico só abre às 14h às segundas-feiras — outra razão para Erice ser terça.

O museu do sal em Nubia fecha ao fim da tarde, mas os diques e os moinhos vêem-se sempre. Levem repelente: ao pôr-do-sol há mosquitos.

5
Quarta · Ilhas Egadas
Ferry de Trapani · bicicleta o dia todo

A água tem uma cor em que não vão acreditar

Favignana é uma ilha plana, feita de pedra de tufo branco, com o formato de uma borboleta. Aluga-se uma bicicleta no porto e passa-se o dia a saltar de cala em cala.

  • Ferry no porto de TrapaniMeia hora de travessia. O carro fica em terra — na ilha ninguém precisa dele.
  • Bicicletas e Cala RossaUma antiga pedreira de tufo que o mar invadiu: paredes brancas cortadas a direito a cair sobre água turquesa. É a fotografia que toda a gente já viu da Sicília sem saber onde é.
  • Bue Marino e Cala AzzurraDuas enseadas a dez minutos de pedal, cada uma com o seu tipo de água. Escolhe-se uma e não se sai de lá.
  • Ex-Stabilimento FlorioA maior fábrica de atum do Mediterrâneo, hoje um museu enorme de arcos de tijolo, caldeiras e âncoras. Fresco lá dentro, e muito melhor do que parece.
  • Aperitivo na praça de FavignanaA vila é meia dúzia de ruas com uma igreja e mesas na rua. Uma cerveja antes do ferry de regresso.
O pormenor

Reservar o ferry com antecedência. Em agosto esgota, e há duas companhias com horários diferentes — convém comprar ida e volta no mesmo operador.

Bicicleta normal chega: a ilha é plana e tem 8 km de ponta a ponta. As eléctricas custam o triplo e não fazem falta.

Cala Rossa não tem sombra nenhuma e o acesso é por pedras. Sapatos de água e chapéu.

6
Quinta · Mudança de base
Golfo del Cofano → Monreale → Palermo

Seis mil e quinhentos metros quadrados de ouro

De manhã despedimo-nos do mar. À tarde entramos na catedral de Monreale e ficamos todos calados, o que connosco não é fácil.

  • Miradouro de MacariA curva da estrada onde toda a gente encosta o carro: o Golfo del Cofano inteiro lá em baixo, com a montanha a cair a direito no mar. Vinte minutos, e ficam com a melhor foto da viagem.
  • Último banho na Tonnara del SeccoAs ruínas de outra fábrica de atum, com a água mais clara de toda a costa por baixo. Depois, malas no carro.
  • MonrealeUma catedral normanda com 6.500 m² de mosaicos de fundo dourado a cobrir todas as paredes, e um Cristo Pantocrator de nove metros na abside. Com a Capela Palatina, é a coisa mais impressionante da Sicília. O claustro ao lado tem 228 colunas, todas diferentes.
  • Check-in em Palermo, carro na garagemE é a última vez que lhe tocamos até sábado de manhã.
  • Primeiro contacto com PalermoA Vucciria à noite: bancas de comida na rua, gente de pé com copos de plástico, música alta. Não se janta — vai-se comendo.
O pormenor

Monreale fecha à hora de almoço e o claustro tem bilhete separado (vale a pena). Confirmar os horários no próprio dia.

Ombros e joelhos tapados para entrar. Há lenços à porta, mas há sempre fila.

Alojamento fora do perímetro da ZTL — ver a letra pequena no fim.

7
Sexta · Palermo
Um dia inteiro, todo a pé

A cidade come-se com as mãos

Mil anos de árabes, normandos, espanhóis e bombardeamentos, tudo empilhado nas mesmas ruas. Palermo é suja, barulhenta, decadente e absolutamente inesquecível.

  • CatedralNormanda, árabe, gótica catalã e neoclássica na mesma fachada. Um manual de história inteiro numa só parede.
  • Capela PalatinaDentro do Palácio dos Normandos. Tecto de madeira esculpido por artesãos árabes, paredes de mosaico bizantino, chão de mármore normando — tudo ao mesmo tempo, no mesmo sítio, no século XII. É o ponto mais alto da viagem.
  • Catacumbas dos CapuchinhosOito mil corpos vestidos, pendurados nas paredes de corredores subterrâneos, alguns com 400 anos. Macabro e inesquecível. Quem não tiver estômago fica a beber café à porta — sem julgamentos.
  • Almoço de pé no mercado de BallaròPanelle, crocchè, sfincione, arancine. Gritos em dialecto, toldos coloridos, peixe em cima de gelo. Come-se de pé, com as mãos, por cinco euros.
  • RiposoGelado, sombra, ar condicionado. A cidade fecha e nós também devíamos.
  • Quattro Canti, Martorana e San CataldoO cruzamento barroco onde as quatro esquinas são fachadas curvas. E, a 50 metros, duas igrejas lado a lado: uma com mosaicos bizantinos dourados, a outra com três cúpulas vermelhas árabes.
  • Oratório de Santa CitaUma sala inteira coberta de estuques brancos do Serpotta — anjos, cortinas e cenas de batalha esculpidas em gesso. Quase ninguém entra. Erro deles.
  • Teatro Massimo e aperitivoO maior teatro de ópera de Itália. Escadaria à frente, copo na mão, e o dia a acabar devagar.
  • Último jantar, na KalsaO bairro árabe antigo, meio em ruínas e meio cheio de mesas na rua. Cannoli feitos na hora à sobremesa — nunca antes.
O pormenor

Bilhete da Capela Palatina comprado online, com antecedência. É a única reserva verdadeiramente obrigatória da viagem.

O que fica de fora: Palazzo Abatellis, Orto Botanico, a Zisa. Um dia é um dia. Se a cidade vos agarrar, há sempre uma segunda viagem.

Palermo pede o cuidado de qualquer cidade grande: mochila à frente nos mercados, nada de valor à vista.

A parte séria

O que vamos comer

A Sicília foi árabe durante 250 anos e nota-se em tudo o que se põe na mesa. Oito coisas que não se podem falhar, cada uma no seu sítio.

← Arrastar para o lado

San Vito Lo CapoCùscusu de peixeCuscuz cozido a vapor com caldo de peixe da rocha. Herança árabe directa. É o prato da vila e há um festival inteiro dedicado a ele.
Trapani · EriceBusiate al pesto trapaneseMassa torcida à mão com pesto de amêndoa, tomate cru, alho e manjericão. Nada de pinhões — isto é o sul.
ScopelloPane cunzatoMeio pão enorme, azeite, tomate, anchovas, queijo primo sale e orégãos. Um chega para dois. A sério.
EriceGenovesiMassa areada morna com creme de pasteleiro lá dentro, polvilhada de açúcar. Comem-se à saída do forno, de pé, na rua.
PalermoPane con panellePão com fritos de farinha de grão-de-bico e croquete de batata. Cinco euros, comido de pé no mercado. O melhor almoço da semana.
PalermoSfincioneFocaccia grossa com cebola, tomate, anchova e pão ralado. Vende-se em carrinhas, aos gritos, à esquina.
Em todo o ladoCannoloSó vale se a massa for recheada à frente dos olhos. Se já estiver cheio na vitrina, está mole — passem à frente.
Ao pequeno-almoçoGranita e briocheGelo raspado de amêndoa, amora ou café, com um pão doce para molhar. É assim que se come de manhã na Sicília em agosto.
Plano B

Se quisermos trocar um dia

Em vez de Favignana Marsala, Mozia e o Stagnone

Uma ilha fenícia de 2.700 anos onde se chega num barco de dez minutos, com uma estátua grega no meio dela e uma estrada submersa que ainda se vê debaixo de água. À volta, a lagoa do Stagnone com salinas e moinhos. Ganha-se história e o segundo melhor pôr-do-sol da ilha; perde-se a melhor água.

Em vez de Salemi Gibellina e o Cretto di Burri

Uma aldeia destruída por um sismo em 1968 e depois coberta por inteiro em betão branco, mantendo o traçado das ruas originais. Uma obra de arte com 85.000 m² onde se anda pelas ruas de uma aldeia que já não existe. Absolutamente único — mas ir cedo, porque o betão branco a 40 graus não perdoa.

A caminho de Palermo Piana degli Albanesi

Uma vila fundada por refugiados albaneses no século XV, que ainda hoje fala albanês e celebra missa em rito bizantino. Faz também os maiores e melhores cannoli da Sicília. Desvio de 30 minutos, e vale cada um deles.

Letra pequena

Cinco coisas que evitam chatices

O calor não é um detalhe

Fim de agosto no oeste da Sicília: 33 a 40 graus, com humidade alta na costa. O plano está construído à volta disto, em três blocos: 7h–11h30 para andar e ver, 12h–16h30 para praia, almoço e sesta, 17h–23h para vilas, miradouros e jantares.

Quem tentar visitar Segesta às duas da tarde vai arrepender-se, e vai fazer os outros arrependerem-se também.

Não conduzir dentro de Palermo

O centro histórico tem zona de trânsito limitado com câmaras automáticas. A multa ronda os 80 a 165 euros, chega primeiro ao rent-a-car e depois a nós, com taxa administrativa por cima.

Solução: alojamento fora do perímetro, carro numa garagem vigiada (cerca de 12 € por dia) e a cidade faz-se toda a pé. Palermo é compacta — não se perde nada.

O carro

Seguro com franquia zero. As estradas secundárias sicilianas estragam jantes e os estacionamentos são apertados.

Nunca deixar nada visível dentro do carro. Em lado nenhum, nem por dez minutos.

Atestar o depósito fora das vilas turísticas — a diferença de preço é real.

O que reservar antes de partir

Obrigatório: Capela Palatina (online) e o ferry para Favignana.

Fortemente aconselhado: restaurantes em San Vito e no centro de Palermo. Em agosto, telefonar de manhã já pode ser tarde para a mesma noite.

A tonnara de Scopello tem entradas limitadas por dia — confirmar por telefone.

Horários sicilianos

O comércio fecha entre as 13h30 e as 16h30. Igrejas e museus fecham à hora de almoço e muitos encerram à segunda-feira.

Jantar antes das 20h30 é sinal de turista — e nalguns sítios a cozinha ainda nem abriu. Adapta-se ao segundo dia.

Ci vediamo

Tragam ténis para andar, sapatos de água para as pedras, chapéu e um saco de praia. O resto compra-se lá.